domingo, 31 de janeiro de 2010

domingo, 17 de janeiro de 2010

I'm the Man

António Nobre um poeta que nos dias de hoje seria considerado metaleiro

Ballada do Caixão

O meu vizinho é carpinteiro,
Algibebe de Dona Morte:
Ponteia e coze, o dia inteiro,
Fatos de pau de toda a sorte:
Mogno, debruados de velludo
Flandres gentil, pinho do Norte...
Ora eu que trago um sobretudo
Que já me vae a aborrecer,
Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
Havia immenso que fazer!...)
- Olá, bom homem! quero um fato,
Tem que me sirva? - Vamos ver...
Olhou, mexeu na caza toda...
- Eis aqui um e bem barato.

- Está na moda? - Está na moda.
(Gostei e nem quiz apreçal-o:
Muito justinho, pouca roda...)
- Quando posso mandar buscal-o?
- Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
(Poz-se o bom homem a aplainal-o...)

Ó meus amigos! salvo-erro,
Juro-o pela alma, pelo céu!
Nenhum de vós, ao meu enterro,
Irá mais dandy, olhae! do que eu!

António Nobre, in 'Só'


Ah Deixem-me Dormir!

O Poeta

Olá, bom velho! é aqui o Hotel da Cova,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova...
(Como eu estou molhado! é de chorar...)


O povo

O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
Jezus! que lindo...

Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
Que eu tenho somno, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar...


A Sra Julia

São as Janeiras da Lua!


O Coveiro

Os quartos, meu senhor, estão tomados
Mas se quizer na valla (que é de graça...)
Dormem, alli, somente os desgraçados:
Têm bom dormir... bom sitio... ninguem passa...


O Zé dos Lodos

A lua é a nossa vacca, ó Maria!
Mugindo...

Ainda lá, hontem, hospedei um moço
E não se queixa... E ha-de poupal-o a traça,
Porque esses hospedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.


O Dr. Delegado

A noite parece dia!


O Poeta

Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem...
Guia-me ao quarto... (a lua vae tão linda!)
Dize-me: quantos annos me dás? Cem?


O Sr. Abbade

E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
Trouxe a d'anjinho!


A Mulher do Moleiro

É o luar, Sr. Abbade, é o luar...

Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda...
Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
«Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
Foi lavar á Fontinha de Belem...»


O Astronomo

Isto lunar assim! Isto é o verao
De S. Martinho!


O Coveiro

Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
Colxão assim não acha em parte alguma!
Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumauma...


O Cego do Cazal

Faz solzinho, que horas são?


Cantando:

«Colxão de raizes e de folhas, lizo,
Lençoes de terra brandos como espuma,
Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo...»
Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?


Carlota

Ó luar, anda mais devagarinho!
Deixa dormir o meu menino...
Coitadinho!


O Poeta

Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão a abrir...
Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
A roupa chega para me cobrir...)


A Mãe do Poeta

Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
Tens o logar quentinho...

Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir,
Tu não me venhas acordar, embora
Chamem... Ah! deixa-me dormir, dormir!


Deus

Dorme, dorme.


António Nobre, in 'Só'

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

As novas e as velhas tecnologias


Meditação

Podemos meditar no que estes fulanos que vão desde banqueiros, ex ministros economistas,i ntelectuais, politicos e outros nos vêem dizer, todos os dias, acerca da situação económica do país e para o destino catastrófico que nos está reservado se nada fôr feito para inverter o percurso suicida que nos espera em termos económicos.
Acredito piamente no que nos vão dizendo.Que as contas públicas estão um descalabro, que o país está sobreendividado e que gasta mais que o que recebe. Estou inteiramente de acordo com estas preocupações que me parecem legitimas mas eu tenho uma pergunta que deixo aqui ficar,em jeito de provocação.Então uma grande parte destes senhores, não tiveram já responsabilidades de governação? Inclusivé alguns já foram até ministros e não fizeram nada? Ou só agora depois de escandalosamente acumularem reformas milionárias que também teem contribuído para o deficite do país e da injustiça social é que veem fazer vaticínios? Tenho também uma solução que pode contribuir, para ajudar a resolver o problema que é diminuir para um quarto do seu valor total as reformas destes gajos que ainda assim será maior que o salário médio praticado cá no burgo.